Formações on-line reuniram educadores de 13 municípios e conectaram a coleta de óleo a temas como alimentação, mudanças climáticas, desperdício e consumo consciente
A educação ambiental pode começar com uma garrafa de óleo usado, mas não precisa terminar nela. Ao longo de agosto e setembro, o Programa Meio Ambiente nas Escolas (PMANE) levou a educadores de diferentes municípios uma proposta de formação que parte da experiência cotidiana das escolas para ampliar o olhar sobre as relações entre alimentação, saúde, meio ambiente e sustentabilidade.
O ciclo de Encontros Formativos PMANE foi realizado de forma on-line com redes municipais de diferentes regiões do Estado de São Paulo. Em alguns locais, os encontros aconteceram como HTPCs (Horas de Trabalho Pedagógico Coletivo); em outros, como reuniões com gestores, coordenadores e/ou educadores. A proposta formativa foi a mesma, mas as conversas ganharam contornos diferentes de acordo com a realidade de cada município e das escolas participantes.
A iniciativa também deu continuidade a uma estratégia do programa: utilizar a coleta de óleo de cozinha usado não apenas como uma ação de destinação adequada de resíduos, mas como porta de entrada para a educação ambiental.

Do óleo à alimentação
O tema escolhido para os encontros foi “Alimentação e Meio Ambiente: o papel da escola na formação de hábitos sustentáveis”.
A partir dele, os educadores foram convidados a olhar para algo presente todos os dias na vida dos estudantes: a alimentação. Antes de chegar ao prato, um alimento percorre uma cadeia que envolve agricultura, solo, água, energia, transporte, trabalho e consumo. Depois, ainda existem questões como desperdício, embalagens e geração de resíduos.
A formação mostrou como essas relações podem ser trabalhadas pedagogicamente e discutiu assuntos como mudanças climáticas, segurança alimentar, agricultura familiar, agroecologia, consumo consciente e desperdício de alimentos.
Um dos pontos recorrentes nas formações foi a necessidade de aproximar crianças e jovens da origem daquilo que comem. Hortas escolares, visitas às cozinhas, conversas com merendeiras, investigação sobre a origem dos alimentos e acompanhamento do desperdício foram algumas das possibilidades apresentadas aos educadores.
A proposta é que a alimentação deixe de ser vista apenas pelo aspecto nutricional e passe a ser também uma oportunidade para desenvolver pensamento crítico, cidadania, cultura, sustentabilidade e responsabilidade ambiental.

Informação para provocar reflexão
Os encontros utilizaram dados, vídeos, perguntas e atividades para estimular a participação dos educadores.
Entre os assuntos apresentados estiveram a quantidade de água associada à produção de alimentos, os impactos da produção agropecuária, a relação entre agricultura e mudanças climáticas e o papel da agricultura familiar no abastecimento alimentar. A formação também retomou questões diretamente relacionadas ao trabalho do PMANE, como os impactos do descarte inadequado do óleo e a importância de transformar informação em mudança de comportamento.
Mais do que apresentar respostas prontas, a formação buscou criar perguntas que pudessem ser levadas para as escolas.
Em Paulínia, por exemplo, a professora Vanessa Lara sintetizou um dos desafios da educação ambiental ao falar sobre o tempo necessário para que esse trabalho produza resultados:
“Eu penso que esse trabalho nas escolas a curto prazo é um trabalho de um por cento, se não for menos. Porém a gente tem que ter a esperança de que as nossas crianças vão se tornar adultos que vão ocupar cargos e posições de decisão.”
A fala surgiu em uma discussão sobre o papel da escola diante de problemas ambientais de grande escala e foi acompanhada por uma reflexão sobre a importância de agir mesmo quando os resultados não são imediatos.

A escola como espaço de transformação
Ao longo dos encontros, uma ideia apareceu de diferentes maneiras: a escola não precisa resolver sozinha os grandes problemas ambientais, mas pode ajudar a formar pessoas capazes de compreendê-los e agir diante deles.
Em Cotia, por exemplo, os educadores discutiram uma situação bastante concreta: o desperdício de alimentos nas escolas. A coordenadora Isis do Carmo de Oliveira Galdino relatou que crianças muitas vezes recebem a refeição e descartam parte dela sem sequer experimentar. A questão abriu espaço para discutir desperdício, mudanças climáticas, escolhas alimentares e o próprio valor do alimento.
Em Votorantim, a discussão ganhou outra dimensão a partir de experiências com hortas escolares. A coordenadora Roberta Agustinho contou que a iniciativa de sua escola envolveu também as famílias:
“É um espaço bem educativo que dá bom resultado com a comunidade. Os pais interagem bastante com essa temática.”
A experiência mostra como uma atividade simples pode aproximar escola, estudantes e comunidade e transformar o espaço escolar em ambiente de aprendizagem prática.
Em Mairiporã, por sua vez, os educadores apresentaram estratégias criativas para estimular a participação na coleta de óleo. Uma escola criou uma moeda própria, a “Mufa”, que os alunos recebiam ao trazer óleo usado e podiam utilizar em uma espécie de lojinha. Outra apostou em painéis, sorteios e adesivos colecionáveis.
São experiências diferentes, mas revelam um mesmo princípio: a educação ambiental ganha força quando consegue fazer sentido para quem participa dela.

541 mil litros de óleo destinados corretamente
Essa dimensão prática também aparece nos resultados acumulados pelo programa.
Considerando a história do PMANE e seus dados consolidados, são 541.320 litros de óleo de cozinha usado coletados desde 2012, com 711 pontos de entrega voluntária (PEVs) ativos em 2026.
A destinação desse volume representa, segundo os cálculos utilizados pelo programa, aproximadamente:
- R$ 1.082.640 em recursos destinados às escolas;
- 514.254 litros de biodiesel produzidos;
- 13,53 bilhões de litros de água preservados;
- 1.245.036 kg de CO₂ reduzidos;
- 4.330.560 unidades de energia poupadas no processo de reciclagem.
Os valores ajudam a dimensionar o alcance da iniciativa, mas os números não contam sozinhos a história do PMANE. Por trás de cada litro estão escolas, estudantes, famílias, professores, gestores e comunidades que participam da coleta e fazem com que uma ação ambiental se torne parte da rotina.
Entre os municípios participantes, há trajetórias bastante diferentes. Carapicuíba, onde o PMANE atua desde 2013, acumula 76.524 litros coletados; Embu das Artes, 66.661 litros; Cotia, parceria iniciada em 2012, soma 59.464 litros; e Ibiúna, que participa desde 2017, chegou a 53.327 litros. São exemplos de como diferentes tempos de parceria e realidades municipais podem compor uma mesma rede de educação ambiental.
Em Ibiúna, por exemplo, o encontro foi transmitido no formato de HTPC on-line pelo canal do YouTube, voltado aos professores da rede e alcançou cerca de 1.000 visualizações. O município já conta com 31 escolas com coleta em 2026, de um universo de 59 unidades fazendo parte do programa.
Já em Jandira, o HTPC foi realizado em parceria com Canal Casa do Professor, da Secretaria Municipal de Educação, ficou disponível para os professores da rede e registrou 927 visualizações. O município participa do PMANE desde 2019 e soma 14.187 litros coletados.


Resultados diferentes, desafios diferentes
A diversidade das experiências também foi um dos elementos mais ricos do ciclo.
Em Pirapora do Bom Jesus, por exemplo, uma escola encontrou uma maneira de ampliar a coleta envolvendo restaurantes e lanchonetes da região. Segundo a gestora Mariana Santos, a estratégia foi especialmente importante porque crianças pequenas nem sempre conseguem mobilizar sozinhas os adultos de suas famílias.
Em Mairiporã, uma situação aparentemente desfavorável também acabou gerando uma reflexão interessante. Uma professora contou que parte das famílias da comunidade utiliza o óleo usado para produzir sabão, reduzindo o volume destinado à coleta. Em vez de tratar a prática apenas como concorrência, a equipe do PMANE discutiu a possibilidade de reconhecer esses moradores como multiplicadores da educação ambiental, já que também orientam outras pessoas a não descartar o óleo de forma inadequada.
Esses exemplos mostram que não existe uma única maneira de fazer educação ambiental. As soluções dependem do território, das pessoas envolvidas e da capacidade de cada escola de transformar seus próprios desafios em oportunidades de aprendizagem.

Uma formação que continua depois do encontro
Os encontros não terminaram quando a reunião on-line foi encerrada.
Após as atividades, as escolas receberam o material em PDF utilizado na formação, reunindo os principais conteúdos apresentados e referências para aprofundamento. O documento pode ser utilizado pelas equipes pedagógicas em novos momentos de formação, projetos interdisciplinares e atividades com os estudantes.
Também foram apresentados recursos do próprio PMANE, como o Almanaque PMANE e o PMANEplay, além de outras publicações, trilhas, podcasts, vídeos e propostas pedagógicas relacionadas à alimentação, consumo consciente, agroecologia e sustentabilidade.
Dessa forma, o encontro funciona como um ponto de partida: a formação oferece repertório e provoca reflexões; cabe às escolas encontrar maneiras de transformar esse conteúdo em experiências adequadas à sua realidade.

Uma rede que aprende e compartilha
Ao reunir municípios com diferentes histórias dentro do PMANE, o ciclo de encontros também evidenciou a diversidade existente dentro de uma mesma proposta.
Há municípios com décadas de experiência, outros que ingressaram mais recentemente; escolas com estruturas diferentes; redes que trabalham com HTPC e outras que organizam reuniões específicas; unidades que apostam em hortas, outras em campanhas, jogos, mobilização das famílias ou estratégias criativas para aumentar a coleta.
O que une essas experiências é a compreensão de que educação ambiental não precisa ser um conteúdo isolado. Ela pode estar presente quando a criança pergunta de onde veio o alimento, quando uma escola acompanha o desperdício do refeitório, quando uma família guarda uma garrafa com óleo usado ou quando uma turma planta uma semente e acompanha seu crescimento.
Como resumiu a equipe do PMANE durante as formações, o programa busca oferecer conteúdos e ferramentas para que o tema ambiental esteja vivo no cotidiano das escolas.
O ciclo de Encontros Formativos 2026 termina, portanto, não como um ponto final, mas como mais uma etapa de uma rede que já destinou centenas de milhares de litros de óleo corretamente e que, principalmente, busca transformar esses resultados em conhecimento, participação e novas práticas dentro e fora da escola.

📥 Material da formação
O PDF utilizado nos Encontros Formativos PMANE 2026 está disponível para download.
O material reúne os conteúdos da formação sobre alimentação, meio ambiente, sustentabilidade e o papel da escola na formação de hábitos sustentáveis e pode ser utilizado por professores, coordenadores e gestores em atividades pedagógicas e momentos de formação.











